Reforma Tributária 2026: O Que Muda e Como Sua Empresa Deve Se Preparar

Guilherme Martelli

Advogado Tributarista

Sumário

Por Dr. Guilherme Martelli – Advogado Tributarista e Professor | Especialista em Reforma Tributária 2026

Tempo de leitura: 8 minutos


Se você é empresário no Brasil, já deve ter ouvido falar da Reforma Tributária 2026. Talvez tenha visto manchetes, talvez seu contador tenha mencionado. Mas você realmente entende o que está vindo?

Deixe eu ser direto: esta é a maior mudança no sistema tributário brasileiro em 30 anos. E diferente de outras “reformas” que ficaram só no papel, esta já está aprovada e começa a valer daqui a pouco mais de 1 ano.

Como professor de Direito Tributário e advogado que pesquisou reformas tributárias europeias durante meu doutorado em Roma, vou explicar exatamente o que muda, por que muda, e – mais importante – o que você precisa fazer AGORA para não ser pego de surpresa.


O Que É a Reforma Tributária 2026?

Pense assim: hoje você paga 5 impostos diferentes sobre consumo e serviços. Cada um com suas regras, alíquotas, prazos, declarações. É como ter 5 médicos diferentes cuidando do mesmo paciente – confuso, ineficiente, cheio de duplicações.

A Reforma Tributária vai fazer uma “consolidação”: 5 tributos viram 3.

HOJE (até 2026):

  • PIS (Programa de Integração Social)
  • COFINS (Contribuição para Financiamento da Seguridade Social)
  • IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados)
  • ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços – estadual)
  • ISS (Imposto sobre Serviços – municipal)

AMANHÃ (a partir de 2026):

  • CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) – substitui PIS, COFINS e IPI
  • IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) – substitui ICMS e ISS
  • Imposto Seletivo – incide sobre produtos nocivos (cigarros, bebidas alcoólicas, etc.)

As 5 Mudanças Que Mais Impactam Sua Empresa

1. Cálculo “Por Fora” vs “Por Dentro”

O que muda: Hoje, quando você precifica um produto ou serviço, os impostos estão “embutidos” no preço (cálculo por dentro). Com a reforma, passam a ser calculados “por fora” – como acontece em quase todos os países desenvolvidos.

Exemplo prático:

  • Hoje: Você vende uma consulta por R$ 500. Desses R$ 500, digamos R$ 80 são impostos já inclusos.
  • Depois da reforma: Você vende uma consulta por R$ 500 + impostos calculados por fora (ex: R$ 500 + 25% = R$ 625 total)

Impacto: Você vai precisar refazer TODA sua precificação. Isso não é opcional.


2. Sistema de Créditos Unificado

O que muda: Hoje cada imposto tem suas próprias regras de crédito (PIS/COFINS regime cumulativo vs não-cumulativo, créditos de ICMS, etc.). Com CBS e IBS, teremos um sistema único de não-cumulatividade.

Traduzindo: Você vai poder abater (descontar) impostos pagos em compras de forma mais ampla e simples.

Impacto:

  • Positivo: Menos burocracia, mais créditos aproveitáveis
  • Desafio: Sistema completamente novo para aprender

3. Alíquota Única (Mas Provavelmente Mais Alta)

O que muda: Hoje você tem alíquotas diferentes de PIS (0,65% ou 1,65%), COFINS (3% ou 7,6%), ICMS (varia por estado, 7%-18%), ISS (2%-5%), etc.

Com a reforma, teremos alíquotas únicas de CBS e IBS – ainda sendo definidas, mas estimativas apontam para:

  • CBS: 8,8% a 9,3%
  • IBS: 17% a 18%
  • Total combinado: 25% a 27%

Impacto: Para muitas empresas, especialmente de serviços, a carga tributária pode aumentar significativamente.


4. Transição Gradual (2026-2033)

Como funciona: A mudança não será da noite para o dia. O cronograma previsto é:

  • 2026: CBS entra em vigor (1% de alíquota teste) + Teste do IBS em alguns estados
  • 2027-2029: Aumento gradual da CBS e expansão do IBS
  • 2030-2032: Redução gradual de PIS, COFINS, ICMS, ISS (sistema híbrido)
  • 2033: Apenas CBS e IBS em vigor (transição completa)

Impacto: Você vai operar em dois sistemas paralelos por 7 anos. Imagine a complexidade da contabilidade.


5. Mudanças Específicas Por Setor

Alguns setores terão regimes diferenciados:

Setores beneficiados (alíquotas reduzidas):

  • Saúde (mas ainda não definido o percentual)
  • Educação
  • Transporte público
  • Produtos da cesta básica

Setores penalizados (alíquotas maiores):

  • Produtos nocivos à saúde (tabaco, bebidas)
  • Produtos prejudiciais ao meio ambiente

Impacto: Se você é médico ou tem clínica, preste atenção: ainda não sabemos exatamente qual será o benefício do setor de saúde. Mas precisamos nos preparar para todos os cenários.


Por Que Empresas de Serviços Serão as Mais Afetadas

Se sua empresa é de serviços (clínicas médicas, consultorias, escritórios, agências), você está no grupo de maior impacto.

Por quê?

Hoje você paga ISS que varia de 2% a 5% na maioria das cidades. Com o IBS estimado em 17%-18%, seu imposto sobre serviços pode triplicar ou quadruplicar.

Mesmo com benefícios setoriais (que ainda não sabemos quais serão), a conta provavelmente vai ficar mais salgada.

Quem sou eu

Guilherme Martelli

Advogado Tributarista e Professor Universitário

A alteração do sistema poderá impactar de forma distinta os setores e modelos de negócio, exigindo das empresas uma análise prévia para compreender os possíveis efeitos sobre sua carga tributária.
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