Guilherme Martelli — Advogado Tributário e Empresarial
Guilherme MartelliAdvogado Tributário e Empresarial
Checklist Estratégico Edição 2026

Inteligência Tributária Preventiva

Revisão Tributária
para Clínicas Consolidadas

Um checklist para quem já passou da fase de abrir a clínica.

Para quem é

Médicos donos de clínica, com sócios e funcionários, que já construíram a operação e nunca pararam para revisar a estrutura tributária que a sustenta.

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00

Abertura

O momento seguinte.

A maior parte do material sobre tributação médica fala com quem está começando: como abrir PJ, qual regime escolher, os primeiros passos. Esse material é para o momento seguinte, quando a clínica já está de pé, já tem rotina, já tem sócio e funcionário, e a estrutura tributária que serviu para abrir continua lá, intocada, enquanto tudo ao redor mudou.

Nenhum dos sinais deste material significa que algo foi feito errado. Significam apenas que o tempo passou e ninguém voltou para olhar de novo.

"É a mesma lógica de um exame de rotina: não se faz check-up porque se está doente, faz-se para saber se ainda está tudo bem."

Os 4 sinais

01

Faturamento cresceu, regime não foi revisado

O regime escolhido na abertura continua o mesmo, enquanto a clínica mudou de tamanho.

02

Entrada ou saída de sócio sem due diligence tributária

A mudança de composição ficou registrada só no contrato social.

03

Convênios e repasses sem conciliação

Ninguém confere se o que foi retido bate com o que foi declarado.

04

Contrato social desatualizado frente à operação real

O documento descreve uma clínica que já não existe mais daquele jeito.

Conteúdo

Sumário

00Aberturapág 02
01Sinal 01Faturamento cresceu, regime não foi revisadopág 04
Box · O que é o ISS fixopág 05
Box · O que os tribunais têm decididopág 06
02Sinal 02Entrada ou saída de sócio sem due diligence tributáriapág 07
03Sinal 03Convênios e repasses sem conciliaçãopág 08
04Sinal 04Contrato social desatualizado frente à operação realpág 09
05Contador x tributaristapág 10
06A reforma como gatilho, não ameaçapág 11
07Checklist final de autoavaliaçãopág 12
01

Sinal 01 de 04

Faturamento cresceu, regime não foi revisado

O que é o sinal

A clínica nasceu pequena e escolheu um regime tributário compatível com aquele tamanho. Com o tempo, o faturamento cresceu, a operação mudou, mas ninguém voltou para perguntar se o regime ainda é o certo. Isso vale tanto para o enquadramento no Simples Nacional quanto para o regime especial de ISS que muitas sociedades médicas usam.

Por que aparece com o tempo

Nenhuma clínica erra ao escolher o regime no início. O problema é estrutural: a lei prevê limites de receita e requisitos de forma de atuação, e o crescimento da clínica pode ultrapassar esses limites sem que ninguém perceba, porque não existe um alarme automático avisando.

Pergunta de autoavaliação

Alguém revisou o enquadramento tributário da clínica nos últimos 12 meses, ou ele é o mesmo desde a abertura?

Para aprofundar este sinal

01

Sinal 01 · Box

O que é o ISS fixo

O ISS fixo é um regime especial em que o imposto não é calculado como percentual sobre o faturamento. Ele é recolhido em valor fixo por profissional habilitado que presta serviços em nome da sociedade.

Exemplo simplificado

Cálculo sobre a receita

Alíquota × toda a receita

O imposto é um percentual aplicado sobre o faturamento da sociedade.

ISS fixo · sociedade uniprofissional

Valor fixo × nº de profissionais habilitados

Uma sociedade médica com quatro profissionais habilitados pode recolher o ISS com base em um valor fixo multiplicado pelo número de profissionais, em vez de aplicar uma alíquota sobre toda a receita.

O valor concreto depende da legislação do município.

Quem pode usar, em regra

Sociedades uniprofissionais, como sociedades de médicos, advogados, contadores e outros profissionais habilitados, desde que:

Prestação pessoal

Os serviços sejam prestados pessoalmente pelos profissionais.

Responsabilidade pessoal ou técnica

Exista responsabilidade pessoal ou técnica pelos serviços prestados.

Caráter profissional

A sociedade não tenha caráter empresarial predominante.

A forma Ltda., isoladamente, não impede o enquadramento.

Atenção

O regime não significa simplesmente pagar menos ISS. É necessário demonstrar que a sociedade mantém caráter profissional e não funciona como empresa organizada para explorar atividade econômica dissociada da atuação pessoal dos profissionais.

O STF reconhece a validade nacional do regime previsto no Decreto-Lei 406/1968 e limita a possibilidade de municípios criarem impedimentos incompatíveis com essa disciplina.

Verificar também a legislação municipal e o regime tributário da sociedade antes de aplicar essa conclusão.

01

Sinal 01 · Box

O que os tribunais têm decidido

Um aviso antes de tudo

Jurisprudência é o que os tribunais já decidiram em casos parecidos, não uma garantia de que a sua clínica teria o mesmo resultado. Cada caso depende dos próprios documentos e da própria situação. Serve como termômetro, não como parecer sobre o seu caso.

01
CARF

Passar do limite de faturamento

O CARF, tribunal administrativo que julga recursos sobre tributos federais, já decidiu algumas vezes que, quando a receita da clínica ultrapassa o limite do Simples Nacional, a saída do regime vale a partir do ano seguinte à constatação, não de forma abrupta e retroativa.

02
Tribunais

Grupo econômico

Quando a clínica funciona junto com outras empresas do mesmo grupo, mesmos sócios, mesma administração, tribunais já somaram a receita de todas elas para checar se o limite foi ultrapassado, mesmo que cada uma tenha CNPJ próprio.

03
CARF

Valores não declarados

Se a Receita encontra depósito bancário sem explicação, isso pode contar como receita não declarada. Mas há decisão do CARF deixando claro que isso sozinho, sem indício de fraude, não justifica a penalidade mais pesada, que exige prova de má-fé.

04
TJ-SPTJ-MT

O direito de se defender

Tribunais de Justiça já anularam exclusões do Simples feitas sem aviso formal à empresa. A regra que prevalece é clara: precisa haver notificação, prazo para resposta e um ato formal, um aviso genérico não basta.

05
Entendimento

Quando a exclusão passa a valer

Há entendimento de que os efeitos podem começar já no mês em que o problema aconteceu, não apenas depois que todo o processo administrativo termina.

06
TRF-3TJ-RSTJ-SP

Passar do limite dentro do próprio estado

Aqui a notícia é mais tranquila. Passar do limite estadual, o chamado sublimite, para efeito de ICMS ou ISS, não tira a clínica do Simples Nacional inteiro. Ela continua no regime para os tributos federais, só passa a recolher ICMS e ISS por fora, no estado ou município correspondente.

E se o excesso for pequeno, até 20%, os efeitos só valem no ano seguinte.

Ponto mais sensível
07
STJTJ-PRTJ-RS

A sociedade médica perder o regime especial do ISS fixo

O STJ define o critério geral: o que importa é se a clínica ainda funciona como um grupo de médicos prestando serviço pessoalmente, com responsabilidade técnica de cada um, ou se já virou uma empresa organizada, onde o médico passou a ser mais um funcionário do negócio do que o próprio prestador do serviço.

Tribunais estaduais já aplicaram esse critério caso a caso, e o padrão que aparece é este: ter sociedade limitada, contratar médico como empregado ou distribuir lucro entre sócios, isso sozinho, não tira o benefício. O que tira é a soma de vários desses fatores mostrando que a clínica deixou de ser uma sociedade de profissionais e passou a ser uma empresa como outra qualquer.

"Vale repetir o aviso do início: são indicativos de tendência dos tribunais, não uma garantia de resultado para a situação específica de cada clínica."

02

Sinal 02 de 04

Entrada ou saída de sócio sem due diligence tributária

O que é o sinal

Um sócio entra, um sócio sai, e a mudança fica registrada só no contrato social. Ninguém checou se existe passivo tributário que o sócio que saiu deveria assumir, ou que o sócio que entrou está herdando sem saber.

Por que aparece com o tempo

Sociedades médicas mudam de composição várias vezes ao longo dos anos. Cada mudança tende a ser tratada como ato societário, resolvido no cartório, e não como evento tributário, que exige checagem de débito e contingência antes de formalizar.

A mesma mudança, duas leituras

Como costuma ser tratada

Ato societário

  • Alteração do contrato social
  • Resolvida no cartório
e

O que ela também é

Evento tributário

  • Checagem de débito
  • Checagem de contingência
  • Antes de formalizar
Pergunta de autoavaliação

A última alteração de sócio na clínica foi acompanhada de checagem de passivo tributário, ou só da atualização do contrato social?

03

Sinal 03 de 04

Convênios e repasses sem conciliação

O que é o sinal

A clínica recebe de vários convênios, cada um com regra própria de retenção, e ninguém confere, período a período, se o que foi retido bate com o que foi declarado.

Por que aparece com o tempo

Quanto mais convênios a clínica atende, mais complexa fica essa malha de retenções. No início, com poucos convênios, é fácil acompanhar de cabeça. Com o crescimento, a conciliação vira uma tarefa que ninguém assume formalmente.

Onde a conciliação entra

01

Vários convênios

Cada um com regra própria de retenção.

02

Retido x declarado

O que o convênio reteve de um lado, o que a clínica declarou do outro.

03

Conciliação

Conferir, período a período, se os dois lados batem.

Pergunta de autoavaliação

Alguém confere regularmente se as retenções feitas pelos convênios coincidem com o que foi declarado pela clínica?

04

Sinal 04 de 04

Contrato social desatualizado frente à operação real

O que é o sinal

O contrato social ainda descreve uma clínica que já não existe mais daquele jeito: endereço antigo, serviço que mudou, sócio administrador que já não administra.

Por que aparece com o tempo

A operação muda mais rápido que o papel. Atualizar contrato social nunca parece urgente, até o dia em que alguém pede o documento, e ele não corresponde à realidade.

O papel e a realidade

No contrato socialNa operação real
EndereçoContrato:O endereço antigoHoje:Onde a clínica funciona
ServiçosContrato:O serviço descrito na aberturaHoje:O que a clínica faz de fato
AdministraçãoContrato:O sócio administrador registradoHoje:Quem administra de verdade
Pergunta de autoavaliação

O contrato social da clínica reflete exatamente o que ela faz e quem a administra hoje?

05

Papéis complementares

Contador x tributarista

Contador

Cuida da execução

O operacional do dia a dia que mantém a clínica em funcionamento.

  • Guias
  • Folha
  • Balancete
+

Tributarista

Cuida da estrutura

A estratégia por trás das escolhas que o contador executa.

  • Desenho do regime
  • Revisão periódica
  • Estratégia das escolhas

"Nenhum dos dois substitui o outro, da mesma forma que um clínico geral não substitui um especialista."

Auditar a própria estrutura tributária não é desconfiar do contador, é reconhecer que execução e estratégia são funções diferentes, e que ambas merecem atenção.

06

Transição 2026 — 2033

A reforma como gatilho, não ameaça

Entre 2026 e 2033, toda empresa brasileira vai conviver com dois sistemas tributários ao mesmo tempo, o atual e o novo, em transição gradual. Isso significa que toda clínica vai precisar rever a própria estrutura de qualquer forma, queira ou não.

O calendário da transição

Em curso
2026

Ano de teste

CBS e IBS começam em caráter de teste, ao lado dos tributos atuais.

2027

CBS em vigor

A CBS passa a valer no lugar do PIS e da Cofins, que são extintos.

2029–32

ISS e ICMS em redução

Os tributos atuais diminuem ano a ano, e o IBS cresce na mesma proporção.

2033

Sistema novo integral

ISS e ICMS deixam de existir. CBS e IBS passam a valer por completo.

Referência: Emenda Constitucional 132/2023 e Lei Complementar 214/2025.

"Vale aproveitar essa revisão obrigatória para fazer a revisão que já deveria ter sido feita antes e nunca foi. Em vez de tratar a reforma como mais uma dor de cabeça, ela pode ser o motivo prático que finalmente coloca a estrutura da clínica em dia."

07

Autoavaliação

Checklist final

Marque o que se aplica à sua clínica. Quanto mais itens não marcados, maior a chance de existir alguma revisão pendente.

0/ 4

Toque nos itens acima para marcar o que já se aplica à sua clínica.

Isso não é diagnóstico, é ponto de partida.

Guilherme Martelli GM

Sobre o autor

Guilherme Martelli

Advogado Tributário e Empresarial

  • Doutorando pela Sapienza Università di Roma
  • Professor universitário
  • Sócio do Martelli & Abreu Advocacia (Curitiba/PR)
  • OAB/PR 97.091

Contato informativo

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